Demétrio e o Dilema da Alma Humana
Quarta-feira, 23 Abril, 2008
Gaia criou os gigantes para vingarem os titãs que Zeus prendera no Tártaro. Eles são conhecidos pela pobreza espiritual e por seu gigantismo material. Personificam a banalidade, a força bruta, os instintos corpóreos, a ignorância, a burrice.
Para derrotar um deles é necessário conjugar os poderes do homem e dos deuses. Zeus recorreu a Heracles, antes que este se tornasse imortal, para matar o gigante Porfírio: o deus dá os golpes que debilitam o inimigo, e o homem o executa com flechadas.
Apolo trava uma grande batalha contra Efialtes, o gigante caolho. Para executa-lo, também apela para Heracles, que cega o outro olho do inimigo. Todos os deuses que travam embates contra gigantes – Poseidon, Afrodite, Atena, Dionísio, etc. – escalam forças humanas para acabar com a ameaça.
Não se sabe como os gigantes sumiram do mundo, mas um tempo atrás eu ouvi falar de um que está por aí até hoje. Dizem que mora nas imediações do Parque Trianon, na avenida Paulista. A última vez que tive qualquer notícia já faz bem uns trinta anos. Ele já é bem velho e dorme bastante. Mas nunca foi visto, é invisível. Bom, na verdade duas pessoas já foram capazes de vê-lo. Duas mulheres humanas, as quais ele amou muito.
A primeira apareceu numa época em que os seres fantásticos ainda caminhavam pelo mundo livremente e conviviam com os humanos. Os gigantes eram uma das únicas espécies em extinção, e por isso Demétrio – o gigante – se escondia. Ser invisível era ao mesmo tempo sua maldição e sua dádiva: ele se mantinha protegido dos caçadores de gigantes, mas não podia conviver com ninguém. Até Elisa DelPrimo chegar.
Demétrio nem se importava com as pessoas, pois elas sempre passavam reto, nunca o viam, nem mesmo ouviam. Pois além de tudo sua maldição o mantinha em completo silêncio, como se realmente não existisse, fosse um fantasma. Mas Elisa o via. Ficou ali parada, encarando-o por muito tempo, até que finalmente ele percebesse que estava sendo observado. Ela não teve medo do gigante nem uma vez sequer. Passaram anos conversando e se amando intensamente. Mas o tamanho dos dois era definitivamente um empecilho, e além disso ninguém acreditava em Elisa, já que somente ela podia ver Demétrio. Suas amigas e seus familiares faziam de tudo para afasta-la de seu sonho bizarro. Sem sucesso. Até a chegada de Sir Fernando Celmeña, que arrematou o coração da jovem e a levou embora pra longe, deixando o pobre gigante totalmente abandonado.
Os anos que se seguiram foram aterradores para Demétrio, e por muitas gerações ele se manteve adormecido para evitar pensar em sua amada. Mas sempre tinha o mesmo sonho, um pesadelo que lhe mostrava o amor intenso entre Elisa e Sir Celmeña, os filhos que tiveram. E isso amargurou o gigante de bom coração, aproximando-o da real natureza de sua espécie.
Quando finalmente acordou, passou a cometer atentados contra os humanos, na expectativa de encontrar sua noiva fugitiva. Mas a única notícia que foi capaz de encontrar estava inscrita no mausoléu da família DelPrimo: Elisa estava morta. Demétrio se tornou ainda mais enfurecido, e decidiu fugir para o que chamavam de Novo Mundo. Cruzou oceano a nado e chegou a uma terra linda, mas povoada pela escória daqueles que moravam em sua antiga região.
O continente ainda possuía muitas áreas inabitadas, portanto foi muito fácil encontrar um bom lugar para morar. Demétrio se instalou próximo a um acampamento de humanos que ele nunca tinha visto igual: pareciam ter uma ligação muito forte com a terra e a natureza, e isso cativou o gigante. Aos poucos, se apaixonou por uma das moças que lá moravam. Segundo o que ouvia, seu nome era Sapoti.
Sapoti não era capaz de vê-lo, mas podia ouvi-lo. E logo Demétrio deu um jeito de conseguir conversar a sós com ela. Os dois se apaixonaram intensamente e combinaram de viajar o mundo todo, conhecer tudo o que era possível e ter muitos filhos. Um certo dia ela simplesmente passou a vê-lo, e ambos ficaram muito felizes. E cada vez mais apaixonados.
Passavam horas, até mesmo dias, apenas conversando, conhecendo um ao outro.
Entretanto, Sapoti estava muito triste: sua tribo vinha travando muitas batalhas com os humanos conterrâneos de Demétrio, e um a um seus amigos e familiares iam embora. Ao invés de afastar, isso aproximou ainda mais os dois apaixonados. É muito difícil, digamos assim, se aproximar muito de um gigante. Digamos que há uma certa incompatibilidade. Mas Sapoti e Demétrio tinham suas formas de amar, e segundo eles, era ideal, como se encaixasse direitinho.
O gigante decidiu intervir de alguma maneira e ajudar a tribo de Sapoti, mas desde que ninguém na tribo ficasse sabendo de sua existência, não queria que acontecesse o mesmo que ocorrera com Elisa e sua família. Certa noite, então, atacou o acampamento dos invasores, obrigando os sobreviventes a recuarem no dia seguinte, muito enfraquecidos. Os habitantes da tribo atribuíram o feito a seus deuses, mas ainda assim Demétrio ficou muito feliz em poder ajudar, e além disso conseguira conquistar de vez a indiazinha.
Certa vez o gigante resolveu presentear sua amada. Levou-a até a mais alta das montanhas. Mal sabia ele, mas ela tinha medo de altura, e implorou que não a levasse até o topo. Demétrio não a ouviu, justificando que o que ela veria lá em cima acabaria com qualquer medo. E pegou-a na mão. Estava tão excitado, tão feliz, que nem ouviu os gritos de desespero da jovem moça. Seus esforços obviamente eram inofensivos ao magnânimo gigante que subia a montanha.
Ao chegar no topo Demétrio abriu a mão e levantou Sapoti bem no alto. Queria que ela pudesse ver o mundo como ele via. Que visse o pôr-do-sol, o céu, os pássaros, o mar como ele via. Queria compartilhar com ela todas as suas experiências, todo o seu conhecimento. Mas a jovem estava em estado de choque, perdeu o equilíbrio e caiu lá de cima. Claro que Demétrio tentou pega-la, mas ficou tão desesperado que terminou por esmagar sua amada na tentativa de agarra-la no ar.
Sapoti morrera pois Demétrio não foi capaz de escuta-la. Não ouviu o que ela estava sentindo, o que ela queria, o que ela não queria. Ele ainda tentou se matar algumas vezes, mas não conseguiu. Se isolou e hoje vive escondido. Não quer causar mais nenhum dano a ninguém. Fica ali, sentado, olhando os carros passarem, os prédios subirem, sem ousar mexer um músculo que possa machucar alguém.
Hoje podemos dizer que os gigantes são a personificação de um dos maiores medos dos humanos. E é por isso que eles só podem ser mortos pela comunhão dos poderes dos deuses e dos homens: pois um sempre depende do outro. O gigante simboliza tudo aquilo que o homem deve superar. Mas enquanto houver o preconceito, a raiva incondicional, o egoísmo, eles continuarão por aí. Porquê na verdade sabemos o real motivo da “extinção” dos gigantes. Eles fugiram para um lugar muito difícil de acessar, e muito mais difícil de remove-los. É um lugar seguro: nossas almas.