A longa estrada

Sábado, 24 Maio, 2008

Certa vez Gregor resolveu gritar. Um grito de alívio, como se algo estivesse preso dentro dele e fosse culpa de outra pessoa. Como se não tivesse sido ele mesmo quem prendeu aquilo ali, ele gritou. E saiu um urro tão agressivo que caso alguém ouvisse, com certeza se sentiria ofendido. Pois toda a raiva era dele mesmo, realmente. Mas era destinada pra todo mundo afora. Era um aviso. Um grito de raiva, de liberdade, mas que na verdade era um grito de desespero.

Ele notara que era igual a todos. Que todos sentiam as mesmas coisas que ele. Não a mesma coisa, exatamente, mas cada um tinha seus próprios problemas e afazeres para lidar que não as intermitências amorososas de um idiota de classe média.

Ah, se eles soubessem o quanto Gregor sofria com ele mesmo. Mas aquilo não era importante pra ninguém além dele mesmo. A bolsa de valores era mais importante. A roupa a ser usada na festa era mais importante. A espessura dos pêlos pubianos naquela noite promíscua era mais importante.

Mas para Gregor ninguém sofria como ele.

Pois parecia que seus esforços nunca eram reconhecidos. Nem mesmo pelas pessoas próximas, aquelas de quem ele gostava muito. Na verdade estas costumavam dar exatamente a pior resposta esperada. Ou nenhuma resposta.

Ah, ele já tentara tanto. Tantas. E nada acontece. Nada sai do mesmo ponto conhecido, aquele exato momento em que a aspiração inverte seu fluxo. O momento em que a coluna gelava de medo. Ou o exato momento em que o projétil acerta o corpo que transita em trajetória oposta. Gregor nunca soube o que vem depois.

E estava cansado.

Queria ser visto, sentido, ouvido. Mas não. Sempre haveria alguém mais visível, mais ouvível. Mais vivo. Gregor sempre fora o caminho do meio, mas o caminho medíocre. Não o caminho do equilíbrio, mas o da total falta de elementos interessantes. Ou pior, com tantos elementos interessantes que a única patente possível seria a de general. Mas ele sempre quis ser soldado e não conseguiu.

Mais do que nunca ele sabe que a estrada é longa. E que é muito fácil de se distrair.

Woke up this morning 

Singing an old, old Beatles song 

We're not that strong, my lord 

You know we ain't that strong 

I hear my voice among others 

In the break of day 

Hey, brothers 

Say, brothers 

It's a long long long long way 

Os olhos da cobra verde, hoje foi que arreparei 

Se arreparasse a mais tempo não amava quem amei 

Arrenego de quem diz que o nosso amor se acabou 

Ele agora está mais firme do que quando começou 

A água com areia brinca na beira do mar 

A água passa e a areia fica no lugar 

E se não tivesse o amor, e se não tivesse essa dor 

E se não tivesse sofrer, e se não tivesse chorar 

E se não tivesse o amor 

No Abaeté tem uma lagoa escura 

Arrodeada de areia branca

(Caetano Veloso, It’s a long way)

One Response to “A longa estrada”

  1. Marcela Says:

    Cau, que lindo!

    Não há como ler “Gregor sempre fora o caminho do meio, mas o caminho medíocre. Não o caminho do equilíbrio, mas o da total falta de elementos interessantes” e não lembra “do limiar do fazer” e do eterno, ou melhor, do ainda constante pedido de licença para existir.

    Hoje mesmo me vi justificando coisas…que saco! Sei, assim como Gregor “que a estrada é longa. E que é muito fácil de se distrair”…mas não desistir e reconhecer já um grande passo!

    Saudades!
    Bjos


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