Ne Me Quitte Pas
Sexta-Feira, 6 Junho, 2008
(conto já publicado, mas agora versão revisada e revisitada)
Gregório, ou simplesmente Gregor, era um escritor. Dos mais medíocres, mas ainda assim um escritor. Começara muito jovem, digitando na velha máquina de escrever de sua mãe alguns desabafos. Com o tempo percebeu que se escrevesse na terceira pessoa seus leitores acreditariam no teor ficcional – e não documental – de suas palavras. Mas no fim é claro que sempre escrevia sobre o mundo real. Sobre seus medos, suas dúvidas, seus sentimentos, seus ressentimentos. Mas mudava alguns nomes, enchia de lirismo algum fato imerso na simplicidade, criava algumas metáforas e voilá, uma pérola do clichê e da mediocridade saía.
Era de fato muito triste o que ele escrevia, mas possuía alguns leitores fiéis. Não, ele nunca publicou nada. Na verdade vivia trancado em seu quarto de pensão com uma máquina de escrever elétrica ganha em alguma rifa, ou presente de Natal de algum tio riquíssimo que não sabia dar afeto a ninguém. Só saía de seu esconderijo para comer alguma coisa no boteco do outro lado da rua. Aproveitava pra tomar uma providência – a cachaça. E quando suas pernas respondiam corretamente às sinapses cerebrais ele terminava a jornada do dia comprando alguns gramas de cocaína com o bicheiro da esquina. Maconha já não dava nenhum barato.
Voltando a seu universo particular, Gregor sentava e escrevia. Reescrevia. Apagava. Começava de novo. Era difícil sentir-se satisfeito com alguma criação sua, mas gostava de receber elogios. O primeiro veio de seu criado-mudo, que na verdade era muito tagarela. Se apaixonou pelas histórias míticas que Gregor criava, e praticamente o obrigava a escrever uma delas por semana pelo menos. Era muito mimado. Em seguida veio o mordomo que morava embaixo do fogão. Este não elogiava qualquer coisa, mas quando acontecia Gregor sabia que era sincero, e se sentia um pouco melhor. Jurandir, o relógio da parede, nada falava, mas Gregor percebia o danado lendo por cima de seus ombros enquanto escrevia. Isso já era suficiente.
Marilyn Monroe aparecia de vez em quando, enquanto Gregor inalava aquela droga que lhe fazia tão bem e tão mal ao mesmo tempo. Ela estava sempre linda, charmosa, sedutora. Mas sempre pensando nela mesma. E queria que Gregor escrevesse sobre sua beleza, apenas. Isso não o deixava muito feliz, mas sempre obedecia à diva, na esperança de possuir seu corpo algum dia. Margaridas, Pintassilgos, Robervais, Antenas. Todos leram a obra de Gregório, mas foi a Ninfa que mais se apegou a elas. Visitava o escritor todos os dias. Acariciava-lhe os cabelos, beijava-lhe a face. E se deliciava com seus textos a noite inteira. Ria, chorava, se chocava.
A Ninfa não tinha uma forma específica. Era, claro, uma mulher, tinha o formato de uma mulher. Mas como se sua existência fosse um sonho. Vê-la deixava a vista enevoada, entorpecendo com seu perfume – que era divino, aliás. De seu pescoço pendia um maravilhoso colar de pérolas. Mas não era um colar comum, Gregor sabia. Cada uma das pérolas ardia e brilhava como se tivesse vida. E eram muitas pérolas. Incontáveis.
Embora jamais tivesse sido capaz de admitir, nem mesmo para o pote de pimentas – ardidas, mas extremamente confiáveis – ele amava a Ninfa. Ela o amava também, Gregor sabia disso. Ou acreditava.
Se tornaram muito próximos, grande amigos. E cada vez que os dois bebiam ou se drogavam juntos, a Ninfa trazia uma bela flor e deixava em cima do travesseiro de Gregor. Lembrava uma rosa, mas não era. Parecia vermelha, mas alguns jurariam que era azul. E era assim, repetidamente. Sempre, após uma noite coberta de entorpecentes e loucuras literárias, uma flor.
A Ninfa pedia, entretanto, que Gregor não contasse a ninguém a origem daqueles presentes. Pois apenas pessoas especiais a recebiam, e se alguém – qualquer um, o criado-mudo que fosse – soubesse que fora a Ninfa quem o presenteara, ficaria morrendo de inveja e ciúmes. E sempre que uma nova flor chegava a anterior morria.
O homem-palito, formado pelos palitos de fósforo usados na cozinha – sem desconfiar das flores, mas certo do afeto de Gregor pela Ninfa – , disse: não se jogue na vala comum. Mas Gregor já estava lá, apodrecendo, fazia muito tempo.
Claro que a situação se tornou insustentável, e Gregor passou a agir como um imbecil. Magoou a Ninfa algumas vezes com sua ânsia por um pouco mais de atenção, queria mais flores. Mas também se machucou muito. Se machucou pois não sabia o que esperar. Mas toda noite lá estava ela. Linda, carinhosa, especial.
Com o tempo seus leitores foram sumindo. Nem mesmo Marilyn queria ler os textos de Gregor. Era tudo pra Ninfa. Tudo pelas flores. Seu sonho era encher um belo vaso com os presentes. E anunciar aos quatro ventos sobre a origem deles.
Mas as ninfas são seres caóticos por natureza e não gostam de se sentir presas. Bem que Gregório a convidou pra morar no quarto de pensão algumas vezes. Mas ela recusava. Era como uma musa. Trazia inspiração e muito sofrimento aos escritores. Pois ela visitava muitos escritores, o suficiente para Gregório se arder em ciúmes. E não escolhia nenhum. Com quantos teria ela se envolvido dessa maneira? Quantos mais recebiam aquelas flores, diariamente, como ele? Viajava, brincava com os sentimentos de todos, e era isso que os fazia produzir mais e mais. Nunca a produção literária de Gregor esteve tão bem, tão bela. Citando Marie Von Ebner-Eschenbach: “Ninguém escreve como um Deus, se não sofreu como um cão.”
Pararam de se envolver. Decidiram, em comum acordo, que o melhor seria manter os momentos de inspiração. Apenas as conversas, o carinho, o apoio. Flores, nunca mais. Mas lá dentro, em seu íntimo, Gregório se corroía. Pois a amava. Amava e admirava. Sentia que a Ninfa não era como os outros seres. Como se suas palavras fossem mais sinceras. E olhava para aquele vaso, com a última flor da Ninfa morta, sozinha.
Mas a amizade dos dois continuava. Gregor tentava de todas as maneiras não transparecer seu desespero. Continuavam o processo diário de entorpecimento, e realmente era muito divertido e satisfatório. Faltavam, é claro, as flores. Elas traziam segurança e conforto para Gregor. Era como se, enquanto ela estivesse ali, viva, no vaso, a Ninfa estivesse por perto, observando-o, apoiando.
E então – num momento de desespero, após meses de boas conversas – Gregor pediu à Ninfa um presente, como nos velhos tempos. E ela produziu talvez a mais bela das flores já vistas. Mas anunciou que seria a última vez. Gregor chorou, implorou, mas a Ninfa era categórica. Sabia dizer não e ainda assim manter-se serena e bela.
Fez Gregor se levantar e colocou a mão em seu peito. Por vários minutos ficaram ali, cada um olhando profundamente a alma do outro, pelos olhos. Era como uma fotografia, estática. Nenhum deles produzia qualquer som. Não respiravam.
Do peito de Gregor saiu um objeto muito brilhante, muito belo. A Ninfa, satisfeita, analisou a pérola por algum tempo e a colocou em seu colar, junto de tantas outras, iguais por fora, mas únicas por dentro. E partiu.
A Ninfa sumiu. Gregor mandou cartas, chamou amigos em comum, pediu pra entrarem em contato com ela. Tentou achar o lugar onde ela morava. Nem sinal. Nunca mais o visitou durante a noite. Sumiu de vez.
A única lembrança que restara estava ali, no criado-mudo, escorada pelo vasinho.
A flor nunca apodreceu, e para sempre Gregor esperou. Quando se está deprimido, um minuto pode ser pra sempre.
“Oh, como somos tristes,
tão terrivelmente tristes,
ao fim das noites alegres”
- Thiago de Mello (1926)
Segunda-feira, 9 Junho, 2008 at 3:58 pm
Gostei do seu blog, dos wallpapers e do conto.
Muito bom.
Domingo, 4 Janeiro, 2009 at 11:10 am
[...] Domingo, 4 Janeiro, 2009 Esta é a continuação de outro conto, Ne Me Quitte Pas, que você pode ler aqui. [...]