Gregor e a Saudade
Sexta-Feira, 29 Agosto, 2008
Há algumas situações específicas que nos permitem encher o espírito de felicidade. Sabe aqueles momentos em que você quase se emociona apenas por estar se sentindo bem? Uma espécie de calor acompanhado de um arrepio na coluna que nos faz sorrir. Quando a simples celebração da vida é o que mais importa. Danem-se as contas a pagar, danem-se as rixas, as brigas, os chefes, os problemas familiares, os compromissos. Dane-se. O que importa é estar ali, naquele momento.
As grandes cidades também têm seu momento de poesia. Mais ou menos no fim da tarde, em dias ensolarados, pode-se ver o grande bloco de granito que é a metrópole se transformar em brasa de chamas alaranjadas. É o pôr-do sol.
Os filmes de época e novelas melosas nos ensinam que bonito é o pôr-do-sol no campo, entre as montanhas, sentindo a brisa do final do dia. Mas não tem nada mais bonito do que ver a coloração final do dia. A luz está tão focada que onde ela não bate formam-se sombras frias e escuras. Não é como ao meio-dia, em que tudo está iluminado. É um contraste fantástico, que atribui imagens ainda mais líricas às tão sérias e compromissadas cidades grandes. O corpo entra num estado de êxtase, e os ouvidos por alguns segundos deixam de ouvir as buzinas e as reclamações cotidianas para ouvir a música do momento. Até aparecer a saudade.
Pessoas vêm e vão por nossas vidas diariamente. Envelhecemos e as pessoas partem ou morrem. Alguns casos, ainda mais tristes, são separações carregadas de rancor. E um segundo após a felicidade do pôr-do-sol eu me lembro delas. Lembro das pessoas a quem eu magoei ou me magoaram.
Acho que é impossível passar por esta vida de forma imparcial. Mais cedo ou mais tarde seus interesses irão bater com o de alguém, ou se distanciar daqueles que antes eram próximos.
E hoje, justamente hoje, me peguei pensando em Marilyn. Lembrei de quando nos conhecemos. Foram meses e meses sem que ela me notasse. Uma menina tão linda. Era a sensualidade e o descaso ao mesmo tempo. Seu corpo, sua fala, suas roupas eram de uma sensualidade extrema, mas cada sorriso, cada chacoalhada de ombros, cada palavra mostravam seu descaso com a sociedade. Mostrava que, por mais que ela gostasse dos outros e da vida, poderia largar tudo a qualquer momento. Era um espírito de liberdade. Claro que ela tinha suas próprias dúvidas e lamentações, mas via-se no fundo de seus olhos que o mundo estava ali para lhe servir, e não o contrário.
E então um dia, de repente, percebi seu olhar encontrando o meu. Lembro que seus olhos mal piscavam, e mais do que um interesse sexual ela olhava pra mim como se eu fosse alguém interessante. Era um olhar de ternura, de amor, de interesse. Era lindo e me aquecia. Mas como uma mulher linda e inteligente como aquela podia gostar de mim eu não sabia. E por isso demorei séculos até tomar uma iniciativa.
Este período também foi maravilhoso. Formou-se uma grande amizade, ancorada em brincadeirinhas infantis e demonstrações sutis de carinho. De repente éramos crianças, falando como bobos, mastigando frutas imaginárias ou sorrindo, em silêncio, sem ter mais o que falar por vergonha ou falta de assunto.
O interesse em seus olhos eram tão aparentes que me afagava e arrancavam lágrimas. A mandíbula trêmula que poderia deslocar a qualquer momento. Os braços moviam-se involuntariamente enquanto o coração pulava de seu peito. Suava frio e gaguejava nas palavras. Aquilo era amor puro.
E um dia aconteceu. Foi lindo, foi como se estivéssemos destinados a ter algo sério. Pois desde a primeira vez não existia a possibilidade de não se tornar um compromisso. Se tornou importante antes mesmo que algo fosse oficializado entre as partes interessadas.
E havia tanta cumplicidade, tanto amor, tanta amizade que se alguém ouvisse falar acharia que era exagero.
Assim que eu comecei a escrever. Não sabia o que dizer, mas sentia a necessidade de gritar ao mundo como eu era feliz. Havia algo entalado na garganta, um motor que me fazia escrever mais e mais. Pois Marilyn me inspirava. Fazia eu me sentir responsável politicamente, socialmente e ambientalmente. Me consolava nos momentos de crise de auto-estima ou revolta familiar. Me dava forças para apontar toda a merda do mundo, como se eu mesmo, sozinho, pudesse resolver tudo. Era como se eu fosse invencível, mas ao mesmo tempo frágil.
E quando ela se sentiu confortável comigo, começou a mostrar que também tinha dúvidas e inseguranças. Foi minha vez de inspirá-la. De ajudá-la a ter força com seus próprios problemas familiares, com as agruras cotidianas, com os desafios, testes e provas que surgem de tempos em tempos.
Mas eu precisava dela. Ela me amava, e eu precisava saber disso o tempo todo. Precisava da segurança que ela me passava. Como uma bênção, um dia não poderia ser bom sem que ela demonstrasse um pouco de todo o seu amor por mim.
Por conta disso eu medo de magoá-la. Não podia ficar sem minha dose diária de amor. Todo o afeto inicial ainda estava lá, mas foi pouco a pouco se tornando uma relação viciada. A culpa me abatia em qualquer situação, e passei a viver em função dela. Não que a culpa fosse dela, mas eu vi que estava me entregando de cabeça. Quer dizer, não vi. Pois pra mim estava tudo perfeito, ainda.
Não para ela.
Marilyn é um espírito de liberdade e não pode sentir-se presa. Enquanto a relação demonstrava crescimento e evolução ela estava feliz. Mas quando viu que precisava me amparar o tempo todo, começou a se sentir presa. Como um passarinho na gaiola, que perde sua coloração e pára de cantar.
E subitamente as pessoas em volta parecem se tornar mais interessantes. E estar presa significa não conhecer o mundo de possibilidades, de amores e paixões que existem. Foi quando você me abandonou.
Eu não estava pronto. Foi como se tivessem decepado um pedaço de mim. Eu só queria dormir e não existia qualquer ânimo pra fazer nada. Outras mulheres não eram tão boas e maravilhosas como ela. Sentia como se minha vida tivesse acabado e como se Marilyn me detestasse.
Mas não era assim. Vira e mexe nos víamos. Tentamos ser amigos. Não deu. Toda vez eu a desejava, queria beijá-la, abraçá-la. E se porventura a visse perto de algum homem eu a queria mais ainda, como se fosse minha posse. Me corroía por dentro pensar que ela estava vivendo os mesmos momentos fantásticos que viveu comigo, mas com outra pessoa. Eu a imaginava rindo de mim com o outro. Rindo dos meus erros, dos meus defeitos.
Só que um dia a ficha caiu. Pior do que falar dos meus erros e defeitos, percebi que ela simplesmente não falava de mim. Percebi que não havia mais espaço para mim em sua vida, nem mesmo pra sentir raiva. Eu simplesmente não existia mais.
E quem ficou com raiva fui eu. Uma nuvem de rancor tão forte me atingiu que passei a viver em função de machucá-la. Fiz tanta besteira, magoei muitas pessoas só por causa dela. Me afundei nas drogas, na bebida, me envolvi com pessoas totalmente escrotas. Tudo para atingi-la. Magoei muitas outras garotas maravilhosas, tudo porquê a vingança me cegava.
Deu certo. Deu certo porquê um dia encontrei Marilyn na rua. E, aos gritos, ela me agrediu. Agredi de volta, parecíamos dois animais. O ódio em seus olhos eram tão aparentes que feriam e arrancavam lágrimas. A mandíbula tão tensa que poderia deslocar a qualquer momento. Os braços moviam-se involuntariamente enquanto o coração pulava de seu peito. Suava frio e gaguejava nas palavras. Aquilo era ódio puro.
E então ela virou as costas e nunca mais a vi. Sumiu. Ouvi dizer alguma coisa ou outra sobre ela. Mas nunca mais a vi.
Hoje eu escrevo, e quando penso nela percebo que após todo esse tempo nós perdemos o que nos juntara anteriormente. Lembro de quando eu lia um livro ou via um filme legal e te contava só pra saber sua opinião.
Escrevi algumas coisas pra você. Versos, contos e cartas. Até hoje você não me respondeu.
Sei que estamos distantes, e sei que nunca teremos aquilo novamente. As frutas imaginárias que mordíamos já apodreceram. As piadinhas e brincadeiras infantis perderam a graça. O silêncio da falta de assunto foi preenchido pelas brigas. O sorriso se tornou choro e as demonstrações sutis de carinho viraram agressão.
O pôr-do-sol está chegando ao fim. E o que antes era o lado contrastado da coloração alaranjada agora se tornou frio e escuro como a sombra de onde o sol não bate. E conforme o dia acaba, mais sombras aparecem.
Nada vai ser como foi antes.
Anoiteceu.
Durma bem.
Sexta-Feira, 29 Agosto, 2008 at 4:51 pm
Hey Hey, e cá estamos de volta, não só aceitando vosso convite, como falando algumas groselhas também rsrs
Gostei muito. Um começo sutil que cria todo o ambiente de forma auto-biográfica, degustando o momento, sem pressa de chegar logo na estória em si.
Estória que vai ganhando densidade dramática e descreve o que é o fim dos quase todos relacionamentos que conhecemos.
E o como tudo se esvai, se esvazia ao vento da prosa e da poesia, e mesmo a lembrança; é lembrança vazia, não tem mais magia, da outrora alegria; mas não causa desgoto; não é doce ou amarga, não é, não tem, é bem menos que ser sem.
É isso ai, poderia até pontuar algumas coisas como: “Fazia eu me sentir responsável politicamente, socialmente e ambientalmente.” que vejo como sendo um “e ambientalmente “que da uma quebrinha num rítimo que esta se agilizando… enfim.
Curti; ahhh… não me atentei exatamente a isso mas esse aqui não passou desapercebido: “Por conta disso eu medo de magoá-la. Não podia ficar sem minha dose diária de amor. Todo…”
comeram um M ai rsrs
abraçossssssss
MCestari & DUÍLIO associados
presente, lembrança e esperanto em braile s/a
Segunda-feira, 1 Setembro, 2008 at 11:00 pm
apenas…apenas incrível!
Terça-feira, 9 Setembro, 2008 at 2:33 am
Adoro Gregor!
é o meu preferido…
=]