La Vie En Fleur ou Ne Me Quitte Pas no. 2
Domingo, 4 Janeiro, 2009

[Esta é a continuação de outro conto, Ne Me Quitte Pas, que você pode ler aqui.]
Certa vez, ao acordar, Gregor se levantou e preparou a habitual olhadela para sua belíssima flor no criado-mudo. Muito tempo se passara desde que a Ninfa partira, mas ele mantinha o hábito de admirar aquele pedaço de saudade que compunha seu universo particular. Era um capítulo específico de seu compêndio de experiências de vida, e quando a coisa estava muito ruim, ele ainda apelava para aquela boa memória.
O criado-mudo há muito parara de conversar com Gregor. Notara a flor sobre sua cabeça e certa vez indagou a seu amigo sobre a origem da mesma. Gregor, lembrando do juramento de nunca dizer a ninguém sobre os presentes da Ninfa, se recusou a dizer a verdade. E o criado-mudo finalmente calou em amargura. Da mesma forma o fez Marilyn Monroe, que desistira de Gregor após o abandono como musa inspiradora.
Está certo, seria errado dizer que ele dedicava toda a atenção para a flor da Ninfa, pois não é verdade. Havia outras flores. Flores normais, que duravam o que tinha que durar, brotavam e morriam. E depois chegavam outras, ainda mais belas que as primeiras. Mas a flor da Ninfa nunca estragava. Não chegava a ser um objeto de louvor para Gregor, mas sempre que a olhava ele se lembrava de sua ninfa, que há muito sumira. Como uma lembrança boa que nos aquece nos momentos tristes, a flor se posicionava com ar de rainha no criado-mudo do pequeno quarto de pensão.
A verdade é que Gregor perdera todos os amigos de antes. O mordomo que morava embaixo do fogão casou-se com a margarida – que era de plástico – e foram morar em outra pensão. O homem-palito sumira sem deixar explicações, assim como Roberval – o pinguim da geladeira – e a Antena da televisão que nunca fora ligada.
O Pote de Pimentas, o Pintassilgo e Jurandir também abandonaram Gregor, que por semanas após a partida da Ninfa só conseguia pensar nela. Outros amigos surgiram. Bons amigos, claro. Mas Gregor sentia falta dos antigos, sem querer menosprezar os novos.
Heitor, a lagartixa, tornou-se um grande parceiro nas noites entorpecentes. Outra grande companhia para as noites frias era Felícia, a aranha que morava numa rachadura da parede do quarto. Mas era com o pote de biscoitos que Gregor mais conversava. O pote já estava no quarto quando a Ninfa o visitava, mas só tempos depois de sua partida é que a amizade dos dois começou. E era um afeto muito especial, daqueles transcendentais, um encontro de duas almas.
Outro fato curioso é que Gregor nunca mais escrevera. Sua máquina de escrever continuava em silêncio. Há muito as teclas não batiam. Uma folha constava presa nela, com meia página de um conto inacabado que provavelmente não seria terminado.
Após meses de silêncio, contrariando suas convicções pessoais, o criado-mudo resolveu falar. Estava magoado com seu amigo, mas sabia o quanto aquela flor, embora secreta, era importante para Gregor. E enquanto este se espreguiçava, preparando-se para olhá-la, recebeu um chamado de atenção do criado-mudo. Surpreso, notou que a flor havia morrido. Como, meses depois, isso poderia ter acontecido? O rapaz não compreendia, mas ardia em preocupação. Simplesmente havia morrido. Assim, de surpresa, sem aviso prévio. Sentiu, por alguns instantes, a pressão baixar. Era como se um parente próximo tivesse morrido. Afinal, se a flor morrera provavelmente a ninfa também estava morta, e Gregor nem mesmo tinha como contatá-la.
O que pouco se esperava, entretanto, era que algumas horas depois penderia sobre o parapeito da janela outra flor, ainda mais linda do que a que morrera. E então Gregor teve certeza: a ninfa estava de volta.
E realmente estava. Sentada em cima da pia ela esperava pelo encontro com o olhar de Gregor, com aquele sorriso maroto no rosto, levemente indicando um ar de saudades. Apoiada com o braço direito sobre o pote de biscoitos, ela piscou. “Voltei”, disse. E Gregor só pôde suspirar, contendo o choro na garganta. Se abraçaram, matando aquela falta que ardeu a alma em tempos anteriores.
Mantendo o sorriso no rosto ela colocou a mão no peito dele. Por vários minutos ficaram ali, cada um olhando profundamente a alma do outro, pelos olhos. Era como uma fotografia, estática. Nenhum deles produzia qualquer som. Não respiravam.
Sua existência ainda parecia um sonho. A vista continuava enevoada ao vê-la e seu perfume ainda entorpecia, divino. O colar de pérolas continuava ali, mas estava muito maior, com muitas pérolas novas, brilhando como se tivessem vida. E tinham. Milhares de vidas.
Ela definitivamente estava igual. Os mesmos traços, a mesma personalidade. O cabelo um pouco mais comprido talvez, um pouco mais liso. O sorriso demonstrava que ela havia crescido. Estava mais madura, mais experiente. Provavelmente conhecera regiões longínquas do mundo.
Por uma noite inteira os dois ficaram ali, se olhando. Se reconhecendo. E quando amanheceu Gregório sentou-se em sua máquina de escrever novamente. Na presença de sua musa terminou de escrever o conto, que ela prontamente leu e agradeceu, preparando-se para lhe entregar mais uma flor, mostrando sua intenção em manter a rotina daqueles tempos nunca esquecidos.
Algo mudara, entretanto. Fisicamente ela estava igual, mas não era a mesma pessoa, afinal. Gregor notara isso ao escrever, pois não escrevera um conto fantástico. Era bem escrito, não tinha erros de ortografia ou gramática, era coeso. Mas não era lírico, não era poético. Não havia metáforas respeitáveis. Faltava algo. E neste momento de hesitação a Ninfa se afastou para sentar na cama, e Gregor notou que ela se locomovia com dificuldade, sentindo o peso de seu colar. Havia tantas pérolas que ele se tornara muito pesado, difícil de carregar. Gregor tentou imaginar a quantidade de escritores e artistas que ela visitou pelo mundo neste tempo, e quantas pérolas de cada um ela carregou.
Levantando a mão direita Gregor pediu calma. Disse que não queria uma flor. E a Ninfa chorou. “Por que choras, Ninfa?”, indagou o escritor. E numa explosão de choramingos ela desabafou. Não proferiu uma palavra sequer, mas foi um momento decisivo para que Gregor compreendesse todo o drama. Não era pela sua recusa – mesmo porquê sua opinião nunca teve tanto poder.
A Ninfa passara muito tempo transitando entre os mundos, viajando e crescendo. Conheceu tantas pessoas, e a cada uma entregou um pedaço de sua inspiração. E em troca carregou uma pérola de cada. Foram tantas passagens, tantas visitas, que ela perdera a capacidade de fixar uma residência. Tornara-se uma nômade, andarilha, não possuía um lar. Transitara por tantos universos que não sabia dizer qual era o seu próprio. E isso a deprimia.
Tanto ela quanto Gregor desejavam que a relação anterior fosse mantida. Que tudo fosse igual. Mas os dois estavam diferentes. Crescidos, evoluídos, e aquela afinidade de outrora se tornou apenas um capricho do ego.
Gregor manteve sua rotina durante todo esse tempo. Para ele seria mais do que normal retomar a relação com a Ninfa no exato ponto em que fora interrompido. Mas a própria Ninfa mudara. Aquele mundo em que Gregor vivia mudara, pois para ela fora interrompido com a partida e agora, subitamente, retomado. Definitivamente estava diferente.
Mais uma noite eles passaram em silêncio, observando um ao outro. Ao amanhecer a Ninfa se levantou e, ainda em silêncio, arrebentou seu colar de pérolas, que rolaram pelo chão, quase escondendo o assoalho podre em meio à beleza de cada uma. Calmamente a Ninfa recolheu uma a uma, separando-as em dois montes. Do monte da esquerda ela fez um novo colar. Mais leve, mais curto, tinha um tamanho perfeito para a Ninfa. As pérolas do monte da direita ela guardou em uma bolsa, e dessa bolsa elas magicamente desapareceram, talvez voltando para seus donos, que também estavam livres. Apenas uma ficou do lado de fora. Após pegá-la, a Ninfa sorriu e a entregou para Gregor, que a aceitou.
O escritor sentou-se novamente em sua escrivaninha e escreveu uma continuação para o conto que acabara de entregar à ex-musa. Era belo, lírico, com muitas metáforas. Mas era um conto de despedida. Era bonito, mas ao mesmo tempo triste. Ela leu e juntos eles choraram, abraçados. Sentiam saudades do que já não era mais. Sentiam falta daquela pessoa que agora era uma desconhecida. Os dois, em comum acordo, se separaram.
A Ninfa partiu. Deixou a pérola com Gregor, mas esta sempre lhe pertencera. A flor que pendia no parapeito da janela apodreceu e foi jogada fora.
Era muita pretensão acreditar que as coisas seriam iguais. Gregor passara todo esse tempo lamentando a falta da Ninfa, sofrendo de saudades. Esquecera de aproveitar os novos amigos, ou de manter as antigas amizades. Era como se vivesse num torpor gigantesco, em que sua vida fora anestesiada só por já ter sofrido pela falta de alguém. Em seu íntimo ele acreditava que jamais amargaria novamente por qualquer indivíduo, simplesmente por estar supostamente escolado nestes assuntos. E ao invés de viver um período pleno – como achava que seria – Gregor viveu um período morto. Não escreveu, não amou, não produziu nada. Fez boas amizades, mas não se dedicou a elas como deveria. Abandonou os antigos amigos. Tudo por conta da saudade de uma relação que nunca seria a mesma.
E o mesmo aconteceu com a Ninfa. Ela viajara tanto e conhecera muitas pessoas. Evoluiu, errou, aprendeu, amou. E não podia voltar para o lugar de onde partiu sem notar as mudanças. Afinal ela mesma estava diferente e não poderia viver aquela vida da mesma maneira que vivera em outra época.
Já separados, os dois choraram.
Havia muito carinho entre os dois, claro que havia. Mas não seria igual. E isso continuava a pesar bem no centro do peito de cada um. A vida é assim, ela segue em frente. E cabe a nós perceber quando algo chegou ao fim ou quando ainda existem experiências a viver em uma relação. Não adianta forçar para que as coisas sejam como antes. Cada experiência será sempre única, e o destino de quem acha que pode repetir da mesma maneira uma vivência anterior é a depressão. Pois vivemos uma roda-viva. Quem para é atropelado.
Gregor continuou a escrever. Não precisava mais de uma musa. Percebeu que a criatividade podia vir dele mesmo, e não de fora. Retomou os contos inacabados e limpou sua velha máquina de escrever. Decidira enviar alguns rascunhos para um editor. Quem sabe não publicava algo?
Alguns amigos retornaram. O criado-mudo voltou a falar, Jurandir continuou a ler os contos em silêncio. Marilyn nunca mais voltou, pois da mesma forma que fora com a Ninfa, com ela jamais a relação seria igual. E ela queria isso.
Heitor, Felícia e o pote de biscoitos se deram muito bem com os antigos amigos de Gregório e juntos tornaram aquela casa um ambiente bastante agradável.
A saudade da Ninfa batia de vez em quando. Mas ao invés de desejar sua volta incessantemente, Gregor apenas suspirava, pois o que importava eram as boas memórias, e não a expectativa.
Ele sabia que em algum lugar do mundo a Ninfa estaria a suspirar também, trazendo as boas memórias à mente e aproveitando tudo o que aprendeu com Gregor nos relacionamentos posteriores.
Não é, tecnicamente, um final feliz. Ninguém ficou junto nem se amou eternamente como nos contos de fada. Mas foi um final pacífico, calmo, baseado em respeito mútuo e não em relações estereotipadas ou viciadas.
Não existe cobrança, não existe mágoa. Pode ir em paz, Ninfa.
Com amor,
Gregório.
Domingo, 4 Janeiro, 2009 at 4:10 pm
sempre emocionando…
adoro Gregor e sua forma de escrever!!
bjo
Quinta-feira, 8 Janeiro, 2009 at 7:02 pm
Ai… snif!
Que bonito! Verdadeiro, intenso, emocionante.
Viva o Gregor!!!
Parabéns, meu querido rapaz. Você escreve com alma.
Beijooooooooooosss
Cata
Quarta-feira, 28 Janeiro, 2009 at 4:05 am
chorei… me vi tantas vezes nos seus contos… ms nesse, enquanto lia, pude assistir claramente a uma situação em particular da minha própria vida… mto mais cristalina do que qlqr outra… pq como Gregor eu tb sentia essa saudade incessante e a vontade d q tdo voltasse a ser cmo antes, ms como ele, tb, deixei a minha Ninfa ir pq percebi q era exatamente isso o necessário e o bom a ser feito…
brigada cau por mais esse pedacinho…
adoro vc e stou com saudadades!
bjos