Prefácio de Gregor

Sábado, 14 Fevereiro, 2009

Ele ainda era pequeno, uma criança, e não podia sair sozinho na rua. Tampouco ficar sozinho em casa. Por conta disso, Gregório era obrigado a acompanhar sua avó em todas as saídas. Iam à feira comprar verdura, andar na lapa pra comprar sapatos baratos, comprar carne na rua de baixo, fazer a unha na rua de cima. E às vezes passavam na oficina do avô, onde Gregório ficava deslumbrado com o brilho da solda que fazia os portões. Com exceção dos dias de oficina, tudo era um saco. Um tédio. O menino não suportava ter que andar e falar com todas aquelas pessoas chatas. Ele não entendia que sua mãe precisava trabalhar e não havia ninguém para cuidar dele. E tudo o que ele queria era ler seus gibis e assistir desenhos animados na TV. Ou, quando possível, brincar com sua prima que aparecia às quintas-feiras.
Certa vez foi com a avó até a casa de uma tia. Não sabia exatamente o porquê dela ser chamada de tia, uma vez que era visivelmente mais velha do que sua própria avó. “Se fosse tia ela deveria ser bem mais velha”, era o que Gregório pensava em sua cabeça infantil. Mas a realidade é que a tia era de sua avó, e por isso era mais velha que ela. O marido dessa tia estava muito doente, e por conta disso as visitas à casa se tornaram freqüentes durante alguns meses.
Hoje em dia Gregório tem poucas lembranças dessa tia-da-avó. Sabe que ela tem nome de santa, e que seu marido – o tio-da-avó que acabara falecendo – tinha nome de um dia da semana. E certamente não era Tio Sábado. O rosto deles há muito fora esquecido, e daquela casa empoeirada só restaram duas memórias. A primeira é dos dois aceroleiros que ficavam no quintal. A acerola que nascia no pomar da direita não podia ser comida. Segundo a tia-da-avó era venenosa. Somente o da esquerda poderia ter suas acerolas colhidas. E em razão deste veneno Gregório era proibido de comer as acerolas que caíam no chão, já que as boas e as ruins poderiam se misturar e causar alguma fatalidade.
A segunda memória era de um dos quartos da casa. Tinha tanta tranqueira, mas tanta tranqueira, que era impossível andar. Discos velhos, holofotes, cabos, caixas de som, armários, sucata, latas de tinta, pincéis, telas estragadas, televisões quebradas, rádios danificados, pára-choques de carros, rodas de bicicleta, chaves de todos os tipos e tamanhos, moedas fora de circulação, papéis e mais papéis, imãs de geladeira, móveis inutilizados, caixas de papelão, brinquedos antigos, carrinhos de rolimã, carrinhos de supermercado. Provavelmente toda a memória material daquele casal nos últimos cinquenta anos estava presente, coberta por uma crosta resistente de mofo e ácaro.
Obviamente Gregório era fascinado por aquele quarto. Alérgico a praticamente tudo, sua avó fazia de tudo para evitar a co-existência do menino com aquela quantidade de ácaro no mesmo ambiente. Mas ele sempre dava um jeito e escapava. Passava horas olhando a capa dos discos que ainda não sabia ler. Ou vendo as figuras dos almanaques de quadrinhos da década de quarenta. Até mesmo admirando as bicicletas, cogitando se um dia aprenderia a andar em alguma – o que nunca aconteceu.
Certa vez o menino encontrou uma velha caixinha de música. Dentro dela havia uma bailarina de chumbo que dançava conforme a música que tocava quando alguém dava corda. Os dois trocaram olhares, Gregório ouviu um pouco da música e assistiu ao ballet da caixinha, depois guardou-a, passando a se entreter novamente com os discos. Na época Gregório não dedicou muita atenção à caixa de música, mas um dia se lembraria dela. Ela certamente lembrou.

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